sábado, 10 de outubro de 2009

Historiador revela ações da esquerda nos Anos de Chumbo


Filme de Jacob Gorender mostra os bastidores de ações criminosas dos movimentos revolucionários na ditadura João Campos - Da Secretaria de Comunicação da UnB


As barbáries que mancharam de sangue os obscuros anos de chumbo da política brasileira (1964–1985) não ficaram restritas aos militares. O chamado movimento revolucionário, comandado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), também teve participação em episódios criminosos ainda pouco explorados na história da ditadura militar. No documentário A Esquerda Revelada, lançado nesta quinta-feira, 8 de outubro, na Universidade de Brasília, o historiador Jacob Gorender revela uma faceta da esquerda bem diferente daquela ligada à imagem de “heróis”, como Che Guevara.

“Atentados terroristas, seqüestros, assaltos a bancos estavam entre as estratégias dos partidos e facções de esquerda para implantar o comunismo no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970”, comentou Gorender no vídeo produzido pela TV Câmara. O episódio que marca o início da luta armada no regime ditatorial ocorreu em 25 de julho de 1966. A explosão de uma bomba no saguão do Aeroporto Guararapes, em Recife, matou duas pessoas - Edson Régis de Carvalho e Nelson Gomes Fernandes - e feriu outras 13. O alvo do atentado, no entanto, era o então presidente e marechal Costa e Silva.

Ex-membro do chamado “partidão”, Gorender dá detalhes das ações do PCdoB e outras facções dissidentes na luta pelo comunismo no Brasil. “Já no início dos anos 1970, o movimento perdeu força e prestígio popular. Na clandestinidade, os assaltos a bancos viraram prática comum para conseguir dinheiro e manter a luta”, contou. De 1970 a 1972, o pesquisador foi preso e torturado por membros do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), entre eles o delegado Sérgio Fleury. “A opção pela luta armada representou o começo do fim de um movimento que não tinha sustentação”.

Jacob ressalta ainda a série de seqüestros de autoridades estrangeiras para negociar a libertação de prisioneiros. Como o do embaixador norte-americano Charles Elbrick, que passou quatro dias em cativeiro em 1969 e acabou trocado por 15 presos políticos, entre eles o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu. Fora os “justiçamentos”, episódios marcados pelo fuzilamento de quatro militantes tidos como traidores, entre 1972 e 1973. “Não havia provas de que eles realmente tivessem traído o movimento”, comentou Jacob, que se dedicou a estudar o período depois de libertado.

REPRESSÃO - O auge da luta armada ocorreu com o Ato Institucional (AI) nº 5, decretado por Costa e Silva, em dezembro de 1968. O documento representou a subversão da Constituição brasileira, dando poderes ainda mais extremos aos militares instalados no poder desde 1964. Um dos desdobramentos imediatos do AI-5 foi a inviabilização dos partidos e organizações de esquerda. A oposição foi praticamente extinta. O Congresso, fechado. A imprensa, amordaçada. Centenas de pessoas foram presas e torturadas. A partir daí, a esquerda se organizou para reagir de forma violenta.

Ex-membro do PCdoB e convidado para o debate realizado após a exibição do filme, Arildo Dória ressalta que o sentimento de paixão exacerbado foi o motor e o calcanhar de Aquiles do movimento revolucionário brasileiro. “O partido apenas reproduzia a cartilha que vinha da União Soviética, que não cabia ao modelo daqui. A maioria estava ali pelo coração. Não havia razão. E foi a pressa de fazer a mudança, principalmente pela escolha da luta armada, que provocou a decadência do movimento”, comentou ele, diante do anfiteatro 9 da UnB cheio.

Apesar da crítica, Arildo, que hoje é membro do Partido Popular Socialista (PPS), ressalta a importância que o movimento teve na história política do país. “A luta representou a chegada de uma idéia e um desejo intenso de mudança a diversas camadas da sociedade e, principalmente, ao Estado. Se isso ainda hoje repercute nos debates, imagina naquele contexto”, disse. Para o ex-membro do partidão, é preciso remexer a história para esclarecer os fatos. “Tanto a ação dos militares como dos combatentes deixaram famílias órfãs que, de alguma, precisam ser recompensadas”, afirmou.

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